Pagina Inicial Esportes Bruno Schmidt fala sobre cenário do vôlei de praia no Brasil: “Sonho que se equipare à Superliga”

Bruno Schmidt fala sobre cenário do vôlei de praia no Brasil: “Sonho que se equipare à Superliga”

Foto: Wander Roberto/Inovafoto/CBV

O fim da parceria entre Alison e André na última segunda-feira, já durante a corrida olímpica para Tóquio 2020, trouxe à tona um problema histórico do vôlei de praia: o vai e vem de duplas. Prova maior disso é que nenhum time que tenta se qualificar para as Olimpíadas no Japão repete a formação da Rio 2016. Campeão olímpico nas areias de Copacabana, Bruno Schmidt comentou sobre o tema, abriu o jogo sobre as deficiências do vôlei de praia e ainda apontou uma possível solução. Confira em entrevista exclusiva ao GloboEsporte.com.

Segundo Bruno, a informalidade que guia o vôlei de praia é justamente o que impede a evolução da modalidade. Trocas frenéticas em busca de resultados, parcerias feitas e desfeitas do dia para a noite demonstram a vulnerabilidade do esporte. Atletas simplesmente não formalizam seus projetos em contratos e acabam vivendo de acordos verbais.

– É tudo um acordo de palavra. Não tem contrato. Depois que a gente se junta, a gente bate o martelo da parceria e tenta se ajudar o máximo possível. É bem pessoal. É o atleta que faz tudo no vôlei de praia. Ele decide o técnico, com quem vai jogar, quem vai assessorar. O atleta vai delegando funções até para o técnico, às vezes, o que eu acho que não é vantajoso. Deixa o atleta muito chefe da sua função – disse Bruno.

Por outro lado, as entidades que organizam os principais eventos da modalidade também não limitam as trocas ou exigem contratos. Para ter ideia, Circuito Brasileiro e Circuito Mundial permitem que atletas disputem todas as etapas com uma formação distinta. E se essa troca constante também dificulta a identificação da torcida com as duplas, Bruno conta que por outro lado muita gente passou a se interessar pelos bastidores da modalidade. É quase uma revista de fofocas, onde todo mundo quer saber quem foi o “pivô da separação”.

– Eu acho que o ponto-chave disso tudo é que muitos levam para o lado pessoal. As pessoas ficam chocadas com o término como se fosse uma vida amorosa. Eu discordo disso. No vôlei de praia são dois parceiros que se juntam para formar uma empresa. E o que o movimenta essa empresa no mercado é a competitividade dela. Gosto de tratar isso de uma maneira profissional. O lado amador não é bom nem para a modalidade, nem para o atleta – disse, completando:

Só para ter ideia, desde o fim da parceria com Alison, em maio de 2018, Bruno já foi dupla de Pedro Solberg e é agora companheiro de Evandro. Com duas trocas em nove meses e outras tantas ao longo da carreira, ele procura ter cautela até na hora de mudar a vida pessoal de cabeça para baixo. Desde que saiu do Espírito Santo, onde treinava com Alison, o brasiliense optou por morar em um Airbnb (site de aluguel diário de imóveis) no Rio de Janeiro.

– Tem menos de um mês desde que eu vim jogar com o Evandro na praia do Leblon. E como no Rio não é tão simples de você fazer uma mudança, prefiro viver dessa forma. Eu fico aqui e nos momentos de folga e fim de semana, e até mesmo nas semanas mais leves, eu volto para minha cidade (tem apartamento em Vila Velha) – contou.

Parceria entre Bruno Schmidt e Pedro Solberg não durou nove meses — Foto: Divulgação / CBV

Para Bruno Schmidt, utilizar o vôlei de quadra como referência para futuras mudanças é uma boa opção. Ele sonha para a modalidade uma relação profissional entre atletas e comissão técnica, que vai de uma assinatura na carteira de trabalho até contratos com grandes clubes – o que, segundo ele, criaria uma relação fiel com torcedores e garantiria maiores benefícios.

– É um esporte mal assessorado que podia se equiparar ao vôlei de quadra. Até os assessores mesmo não sabem o que passa pelo esporte. Quando sai um pouco da informalidade e tem carteira assinada, as estruturas saem mais bem formadas. O vôlei de praia podia chegar nisso. A Superliga é um exemplo de sucesso disso. Seria legal se os clubes pudessem dar uma atenção ao vôlei de praia e propiciassem ao atleta uma situação mais profissional. Gostaria muito, é um sonho meu que o vôlei de praia se equipare à Superliga – disse.

Para que isso se torne realidade, Bruno espera receber apoio da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV).

– A CBV tinha que tentar ajudar nisso. O brasileiro é muito clubista, gosta de torcer pra um clube. Acho que uma situação de clube ia criar uma identificação maior com o nosso esporte. Daria uma segurança maior para o atleta. É o único jeito que eu vejo de conseguir fugir do amadorismo – completa.

O GloboEsporte.com entrou em contato com a CBV sobre as sugestões levantadas por Bruno. A entidade afirmou que a participação dos clubes no vôlei de praia sempre foi bem-vinda e incentivada e que sempre está aberta a propostas. Porém, ainda segundo a Confederação Brasileira, impor um formato do Circuito Brasileiro com clubes implicaria em mudanças no modo operante da modalidade, como a obrigatoriedade na contratação de profissionais para comissão técnica, bem como adequação de local para treinamento.

Ainda segundo a entidade, a medida também não faria com que a mudança de duplas fosse encerrada, uma vez que, mesmo na Superliga, a CBV não tem controle sobre o cumprimento dos contratos, algo firmado entre atleta e equipe. Para a Confederação, ao impor a necessidade de uma equipe ou razão social de entidade esportiva, seriam necessários diversos clubes dispostos a participar de tal formato. Algo que, segundo a CBV, nunca foi proposto pelos atletas e geraria o risco de diversos jogadores ficarem sem um clube interessado.

*Raíra Rondon, estagiária, sob supervisão de Winne Fernandes