Crianças deveriam ter recebido vacinas de rotina em Lucena, diz chefe de imunização ao MPF

A enfermeira chefe de imunização da cidade de Lucena, cidade da Região Metropolitana de João Pessoa onde 49 crianças foram vacinadas contra a Covid-19 com doses da Pfizer para adultos, disse ao Ministério Público Federal (MPF) que as crianças deveriam ter sido imunizadas com vacinas infantis de rotina.

O caso veio à tona após mães das crianças denunciarem, no sábado (15), que seus filhos haviam sido vacinados antes do início da campanha oficial, com doses destinadas para adultos. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, 36 crianças receberam doses vencidas da Pfizer e outras 13 receberam vacinas dentro do prazo de validade.

Segundo a chefe de imunização, “no final de dezembro o Ministério da Saúde requereu que fosse feito um Dia D de vacinas de rotina em crianças, porém a técnica estava com a mãe internada, então foi feito na semana seguinte”. Tanto a técnica quanto a chefe de imunização estão afastadas de seus cargos desde sábado (15).

Trechos do depoimento da chefe de imunização de Lucena sobre vacinação de crianças — Foto: Reprodução

Trechos do depoimento da chefe de imunização de Lucena sobre vacinação de crianças — Foto: Reprodução

A profissional falou ao MPF em uma videoconferência com uma procuradora da República, uma promotora de Justiça, e um advogado, na tarde da segunda-feira (17).

No documento, ela confirma a informação de que conversou com a técnica de enfermagem pelo WhatsApp, mas “não disse para vacinar crianças”.

A enfermeira disse ainda que “não partiu de nenhum superior a ordem para vacinar crianças contra Covid antes da hora”, e que publicou nos grupos de WhatsApp com as unidades de saúde do município “uma orientação de que a vacinação (contra Covid-19) fosse feita no público-alvo de 16 anos a idosos”.

Em relação aos treinamentos para aplicar a vacina, a chefe de imunização explicou que desde maio de 2021 recebe treinamentos da Pfizer para usar a vacina e que a técnica de enfermagem que aplicou as doses a informou que estava assistindo aos cursos.

O depoimento da enfermeira difere do que foi dito pela técnica ao MPF, uma vez que ela disse que não recebeu treinamento sobre a vacinação de Covid-19 para adultos ou crianças.

Chefe de imunização de Lucena disse que deveria haver um Dia D de vacinação de rotina em crianças — Foto: Reprodução

Chefe de imunização de Lucena disse que deveria haver um Dia D de vacinação de rotina em crianças — Foto: Reprodução

O que disse a chefe de imunização

  • No período da vacinação das crianças, ela estava afastada por motivos de saúde;
  • Confirmou a conversa pelo WhatsApp com a técnica de enfermagem, mas não disse para vacinar crianças;
  • Publicou em grupos (de WhatsApp, com todas as unidades de saúde do município) uma orientação de que a vacinação fosse feita no público-alvo de 16 anos a idosos;
  • Em dezembro, o Ministério da Saúde requereu que fosse feito um Dia D de vacinas de rotina em crianças, porém a técnica estava com a mãe internada, então (o Dia D) foi feito na semana seguinte;
  • público infantil deveria ser vacinado com vacinas de rotina;
  • Não sabia que as vacinas (contra Covid-19) tinham sido aplicadas em crianças;
  • Não deu nenhuma orientação para que alguma técnica ou enfermeira aplicasse vacina para crianças menores de 5 anos;
  • Não partiu de nenhum superior a ordem para vacinar crianças contra Covid antes da hora;
  • Desde 31 de maio de 2021 recebe treinamentos da Pfizer para usar a vacina;
  • A técnica a informou que não precisava ir para a rede de frios (para fazer treinamento), uma vez que estava assistindo aos cursos disponibilizados pela Pfizer;
  • Todas as equipes tiveram acessos a treinamentos online, inclusive com calendário de cursos a ser seguido.

O que disse a técnica de enfermagem

  • No depoimento, a técnica disse que foi contratada pela Prefeitura de Lucena em 22 de novembro de 2021, para auxiliar médicos e vacinar crianças, adolescentes, adultos e gestantes;
  • Ela afirmou ter atuado inicialmente aplicando vacinas de rotina e, em dezembro, foi designada para aplicar vacinas de Covid-19;
  • A ordem que ela recebeu foi de que poderia vacinar todos os que estivessem para se vacinar, pois a validade das vacinas da Pfizer estava para vencer;
  • Não houve capacitação da prefeitura sobre vacinação de Covid para adultos ou crianças;
  • Não sabe que não podia vacinar crianças com vacinas de adultos e no mesmo volume;
  • A vacinação em crianças e adolescentes no município, segundo ela, teria acontecido em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) e em uma âncora desta unidade em um assentamento;
  • Ainda de acordo com profissional, foram 36 pessoas, entre crianças, adolescentes e adultos, vacinadas no assentamento no dia 7 de janeiro de 2022;
  • As demais foram vacinadas na UBS, nos dias 29 de dezembro de 2021 e 11 de janeiro de 2022, ou seja, antes do início do calendário de vacinação para crianças entre 5 e 11 anos.

O que diz o MPF

Na segunda-feira, o MPF informou que já existe um procedimento aberto para acompanhar o caso. A assessoria de imprensa do órgão disse que ainda é prematuro afirmar algo no sentido de responsabilidade sobre o caso, pois as pessoas ainda estão sendo ouvidas. O MPF vai apurar não só no âmbito individual da pessoa que aplicou as vacinas, mas também do agente público, do município.

O que diz o Ministério da Saúde

O Ministro Marcelo Queiroga visitou o município de Lucena e recomendou que crianças vacinadas com doses para adultos sejam examinadas. Queiroga conversou com as mães sobre possíveis reações adversas depois da imunização.

O Ministério da Saúde reiterou, em nota, que a responsabilidade quanto ao monitoramento das crianças é dos gestores locais da saúde de cada cidade e estado, e isso inclui o armazenamento correto, acompanhamento da validade dos frascos e aplicação das doses, seguindo à risca as orientações do ministério.

G1-PB

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