O perigo de construir uma campanha olhando demais para o quintal do vizinho – Por Júnior Campos

Júnior Campos – Foto: Divulgação

Em uma campanha eleitoral, acompanhar o que os adversários e outros candidatos estão fazendo é necessário. Observar tendências, analisar estratégias, identificar boas práticas e compreender o comportamento do eleitor fazem parte de qualquer planejamento profissional.

O problema começa quando observar deixa de ser uma ferramenta de aprendizado e passa a ser um método de condução da campanha.

É cada vez mais comum encontrar equipes que, diante de qualquer conteúdo publicado por outro candidato, imediatamente fazem a mesma pergunta: “Por que não fazemos algo assim?”

Surge um vídeo diferente, uma nova trend, um conteúdo com bom engajamento ou uma peça criativa, e logo aparece a sensação de que aquela é a fórmula que está faltando para o sucesso da própria campanha. Mas será?

Existe um risco silencioso nessa obsessão pela comparação: a perda da identidade estratégica.

Cada campanha é construída dentro de um contexto próprio. Cada candidato possui uma história, uma personalidade, uma forma de se comunicar, um público específico e um posicionamento político. O que funciona para um candidato pode ser completamente inadequado para outro.

Um conteúdo precisa, antes de tudo, cumprir uma função dentro de uma estratégia. Precisa ser intencional.

Observar outras campanhas é importante. O mercado político precisa ser acompanhado. É fundamental saber o que está acontecendo, conhecer novas linguagens e entender quais formatos estão chamando atenção. Mas quando uma campanha começa a mudar sua direção a cada novo conteúdo encontrado nas redes sociais, ela deixa de seguir uma estratégia própria e passa simplesmente a reagir aos movimentos dos outros.

O filósofo e pensador francês René Girard desenvolveu o conceito do “desejo mimético”, segundo o qual muitas vezes desejamos determinadas coisas não porque elas possuem, necessariamente, um valor objetivo superior, mas porque vemos outras pessoas desejando ou valorizando aquilo. Isso explica.

Quando olhamos para o conteúdo do outro, frequentemente enxergamos apenas o produto final. Não vemos o planejamento que existiu antes. Não conhecemos o contexto. Não sabemos se aquele conteúdo realmente trouxe resultado eleitoral. Não sabemos se gerou votos, mobilização ou apenas visualizações.

Em uma campanha profissional, a pergunta mais importante é: “Esse conteúdo é bom para a nossa estratégia?”

Comunicação não é uma coleção de conteúdos interessantes. Comunicação é construção de significado.

Antes de reproduzir qualquer ideia, a equipe deveria perguntar:

  • Isso combina com a identidade do candidato?

  • Isso conversa com o nosso eleitor?

  • Isso fortalece nosso posicionamento?

  • Isso está alinhado com nossos objetivos?

  • Ou estamos fazendo apenas porque alguém fez primeiro?

  • Essa última pergunta pode evitar muitos erros.